Sobre índios, política e Chikungunya…

No nosso caminho pra Belém, descobrimos que havia uma Reserva Indígena dos Apinajés, e fomos conhecê-los. Afinal, não há como conhecer o Brasil sem conhecer os verdadeiros brasileiros. É uma pena que não aprendemos nada na escola sobre as várias culturas indígenas que ainda existem (e lutam para existir) no país. Nossa ideia era passar uns dois dias por lá, mas fomos tão bem acolhidos que acabamos ficando quase uma semana! Para se ter ideia, se uma criança ganhava uma bolacha ou copo de suco, ao invés de dizer “é meu!”, vinham oferecer uma parte pra gente e insistiam até que a gente aceitasse. Todos ainda falam entre si na língua Apinajés e as crianças começam a aprender português somente depois dos oito anos, na escola da aldeia. Até essa idade as aulas são todas na língua materna e com foco na tradição deles. Foi com muita luta que conseguiram o direito de educarem suas crianças na própria cultura. Foi também com muita luta que adquiriram a demarcação de suas terras há alguns anos. É uma área suficiente para estabelecerem algumas aldeias espalhadas, mas não o bastante para fornecer toda a caça e coleta que eles tinham quando andavam livres pelo seu território. E quem pensa que aprendemos apenas sobre tradições, saiba que as conversas também eram muito conscientes sobre a atual situação política brasileira (e que dariam uma surra em qualquer discurso de ódio no Facebook, daqueles que não conseguem enxergar além do próprio umbigo).

De pensar que tem gente preconceituosa, que nunca tirou a bunda da cadeira pra ver a realidade, dizendo que esse é um povo preguiçoso por receber incentivo de programas sociais. Um povo que, na verdade, sempre tirou seu sustento da terra, mas teve sua terra invadida e saqueada, e agora são obrigados a se contentarem com o espaço reduzido como se fosse um presente de caridade. Quase todos eles plantam boa parte do alimento. Alguns vivem do extrativismo do coco babaçu ou trabalham como brigadistas em época de seca. Com o preconceito que sofrem, dificilmente conseguem algum emprego na cidade. Hoje eles precisam de dinheiro para ir à cidade, tirar documentos, comprar roupas e alguns alimentos extras, como café, sal e açúcar. No final, o dinheiro desses programas sociais é mixaria perto da quantidade de dinheiro que é sonegada pelas grandes multinacionais, que além de tudo estão destruindo nossa natureza em nome do consumo.

Uma vez, em Mateiros (TO), paramos para perguntar a um fazendeiro qual era a melhor opção de estrada pra sair da cidade. Ele começou a responder, mas de repente, mudou de assunto para um discurso esquisitíssimo de que ninguém nos ajudaria na estrada, pois hoje as pessoas não se ajudavam mais. A causa disso tudo, segundo ele? Os programas sociais do governo socialista comunista (??) que começou com FHC (oi?!) e continua até hoje, tornando as pessoas egoístas (?). A gente não queria falar de política, só precisávamos das informações da estrada, mas o cara se desembestou a falar e não parava mais. Agradecemos a ele no meio do seu discurso, falamos pra ele estudar um pouco de história e saímos fora. Mas aquele discurso sempre voltava para nossas conversas, justamente pela incoerência dele. Apesar de algumas pessoas não nos ajudarem no caminho (pessoas como esse fazendeiro), o que mais encontramos é a generosidade dos outros, e geralmente de quem menos tem bens para compartilhar.

Infelizmente, encontramos essa semana com outro fazendeiro como esse, aqui na reserva indígena, que se recusou a nos ajudar no momento em que mais precisamos. É que bem quando a gente estava pedalando até a última aldeia, depois de uns 10km, a Dea começou a sentir muita dor no quadril e nas coxas. Paramos um pouco pra ela sentar na beira da estrada e, em menos de cinco minutos, ela já tava quase com uns 40°C graus de febre. Fiquei bem preocupado, pois a temperatura dela subiu muito rápido e logo ela começou a tremer de frio. A gente tava em uma estrada de terra que liga duas cidades e corta todo o território dos Apinajés, mas havia pouco movimento de carros. Queria pegar uma carona para a cidade com uma caminhonete, para levar a Dea em um hospital o quanto antes, mas passou apenas uma caminhonete pela gente. Assim que eu acenei para pararem, eles aceleraram e nos deixaram lá. Senti que precisava fazer alguma coisa logo, pois a Dea já tinha vomitado e ficava cada vez mais quente. Decidi deixá-la sentada na beira da estrada, com uma camiseta molhada na testa dela, e fui pra aldeia mais próxima para tentar conseguir ajuda. Saí pedalando forte como nunca pedalei na vida, por três km, até encontrar uma barreira fiscal que os índios montaram para impedir a entrada de bebida alcóolica na reserva deles. Quando cheguei, dois indígenas (que haviam passado antes de moto por nós) conseguiram um frasco de paracetamol pra febre e já tinham arrumado um carro para buscar a Dea e trazer ao posto. Ela veio no carro, e um deles trouxe a bike dela pedalando. Depois de tomar o remédio, a febre dela baixou um pouco, mas ela ainda estava com bastante dor. Aproveitei que todos os carros eram parados na barreira pra tentar conseguir uma carona lá.

Logo parou uma caminhonete vazia, apenas com um fazendeiro de chapéu e cerveja na mão. Expliquei para ele nossa situação, a viagem de bike e da Dea, que precisava ir para o hospital. Ele não queria ouvir. No final, respondeu: “não dou caronas”. Expliquei de novo, quase como se ele não tivesse entendido, e pedi para ele olhar para a Dea, que estava passando mal na beira da rua, para ver que não era mentira. Ele olhou para ela, voltou o olhar e disse: “NÃO”. Passaram mais duas caminhonetes, e todos negaram a ajuda na minha cara, todos brancos endinheirados e cheios de preconceitos. Fiquei muito puto. Lembrei do fazendeiro de Mateiros que dizia que as pessoas não se ajudavam mais. Corrigindo, pessoas como ele não se ajudam mais. Pessoas como ele, que provavelmente também nunca precisaram da ajuda de programas sociais.

O cacique que nos recebeu nos dias anteriores soube da situação e nos encontrou lá. Também chamou uma ambulância, que chegou depois de algum tempo. Mas então não sabia se a gente ia e deixava as bikes lá, se a Dea ia e depois eu dava um jeito de ir para lá com as bikes. Mas no final, ela achava que já estava melhor e resolvemos esperar para ver se a gente arranjava uma carona que desse para levar as bikes também. Eles fizeram chá para a Dea, e uma mulher da aldeia ao lado nos chamou para almoçar na casa dela e descansar lá, enquanto a gente não conseguia a carona para a cidade. Mas em pouco tempo a Dea já estava com febre de novo, vomitando e, pior, sem conseguir andar, o que me deixou muito preocupado. Ainda bem que em pouco tempo o pessoal da casa arrumou uma caminhonete de um cara que estava indo para a cidade. Joguei as bikes e as tralhas na caçamba, de qualquer jeito mesmo, e fomos encarar 36km de areia até o hospital mais próximo. Não temos nem como agradecer todo o apoio que nos deram e a todos que se movimentaram para nos ajudar (não foram poucos). Chegamos no hospital às 15h (ela estava com febre de 40,5°C!) e saímos de lá às 19h, depois de três soros. Descobrimos que o que ela tinha era Chikungunya.

     Gratidão sem tamanho a todos que nos ajudaram. Se realmente existem as “pessoas de bem”, dá pra ver que são as que fazem algo pelo próximo, que realmente fazem a diferença com suas próprias atitudes.

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